quinta-feira, julho 27, 2006

DITADURA DA POPULARIDADE

Frederico Barbosa

O povo está no poder: dita.

É mercado, é opinião sem face. É a miséria da popularidade.

São padres cantantes, moças na dança. Leve a música e o gesto leve,

crença, bunda e sabonete.

As pesquisas ditam. Mandam: o povo está sempre certo. O povo é,

o povo quer, o povo demanda, o povo reclama.

Mandam: seja apenas a mesma merda que o povo ama.

Mandam: seja aeromoça na vida. Sorria sempre: bailarina medíocre.

Faça-se média. Desconsidere-se.

Não pense, nunca faça pensar,

não seja irônico, diga só o que querem: ouvir-se no espelho da mesmice.

Deixe-se xingar, entregue-se, venda-se de corpo e alma. E, acima de tudo, calma:

nunca reclame (des)contente(-se) e cale-se.

Crie-se como imagem, (vazio marcante) marque-se, migalhe-se, seja só o velho,

espalhe-se farelo.

Anule-se: anúncio refrescante, seja refrigerante anta ante.

Ensinam assim: como quem hoje canta. Bajule, puxe, seja banal.

Pule, grite, apague-se nas luzes. Transforme todo som

poema problema em apelo sexual.

Apele: salve sua pele.

Medalhões, pomadas.

(Machado vendo antes)

Palhaços, patetas, enganadores,

falsos magos, pseudopoetas,

professores:

Uni-vos no segredo do bonzo.

O povo julga, joga

pedras, o povo

é sábio, sabe:

quem planta pérolas

colhe tempestade.

quarta-feira, julho 19, 2006

É um pássaro. É um avião. Mas não é o Superman.

(Contém Spoilers do Filme)

Superman returns alcança um feito histórico. Ser um dos piores filmes feitos por Hollywood e ninguém notar. Seus defeitos estão em diversos planos. Desde a ideologia por trás da história até a caracterização do personagem.

Superman é um personagem icônico. Ele sempre encarnou o lema “Truth, Justice and the american way”. Por isso, sempre foi também o personagem mais raso da editora DC comics. Compará-lo com o Batman é até vergonhoso. Contudo, o “American Way” é agora seu principal defeito. A ideologia defendida pelo filme é que a América (ou o mundo) precisa de um salvador. Alguém poderoso para tomar as decisões por nós. Se o artigo pelo qual Lois Lane ganha o pullitizer é “Porque o mundo não precisa de Superman”, o filme faz questão de mostrar que o mundo precisa sim. Após uma ausência de cinco anos, o kriptoniano volta a Terra. E fica claro que o 11 de setembro nunca teria ocorrido se ele estivesse aqui. Uma cena bastante longa mostra Superman sendo ovacionado pelo público em um estádio de Baseball. Se olhada com cuidado, o herói não apenas se sente bem com tais saudações, como parece encorajá-las. As saudações em si são particularmente simbólicas. É quase um cumprimento fascista. Superman simboliza nesse filme o poder americano de salvar o mundo, de guiá-lo e dominá-lo, por que não?

Muitos críticos levantaram o fato de que a metáfora cristã está presente no filme. Ela não apenas está no filme, mas o roteiro é praticamente um plágio da história de Cristo. Todos os elementos estão lá. A comparação com Deus. O pai, o filho perdido na humanidade, o sacrifício, a morte (na posição da crucificação) e 3 dias depois a ressurreição. Superman é Cristo. E se Superman é Cristo, então a salvação é o “American Way”. Não há sutileza. A analogia é direta. Uma cena resume a pobreza do roteiro: Lois Lane cochicha no ouvido de Superman em coma. Ele acorda pouco depois. Viver só vale a pena quando se tem um filho, segundo o filme.

Outra coisa que não é surpresa é a origem do filho de Lois Lane. Em nenhum momento acreditamos que aquele menino é filho de um humano. Sabemos instintivamente que será revelado que ele é filho de Superman. Aqui começa o absurdo entre quadrinhos e filme. Não sou daquelas que defende a fidelidade total aos quadrinhos. Estamos tratando de mídias diferentes e adaptações/ modificações são necessárias. Só que dar um filho ao Superman é um absurdo. Primeiro por causa da mística do personagem. Kal-El é o último filho de Kripton. Por mais que tenha sido criado por humanos, sempre será diferente e solitário. Criar uma família sanguínea para ele é arruinar a pouca complexidade que o personagem possui. Existe a impossibilidade física certamente. Sempre foi claro em todas as revistas, séries de TV e filmes até agora que o DNA do personagem é incompatível com o DNA humano. E nenhuma mulher nesse mundo seria capaz de gerar um filho dele. Apenas uma revista em toda a saga do Superman mostra uma filha dele: “Batman, Cavaleiro das Trevas II” de Frank Miller. Essa filha é fruto do relacionamento do herói com a Mulher-Maravilha, forte e inumana para carregar tal criança.

Em 1972, um escritor de quadrinhos publicou uma história chamada “Deve existir um Superman?”. A obra marcou a mitologia do personagem e gerou outras histórias contestadoras. Basicamente a premissa é a mesma que o filme propõe com o artigo de Lois. Contudo, o desenvolvimento e a resposta são completamente diferentes. A existência de um Superman, um salvador, atrasa o desenvolvimento social humano? O protetor da humanidade atrapalha a evolução de nossas sociedades? São questões fortes. Alguém com tanto poder não pode não fazer nada, seria covardia. Contudo, resolver os problemas pode ser mais prejudicial ainda. Até que ponto o homem deixaria outro ser tomar suas decisões e resolver seus problemas? Ao se apoiar num salvador, o homem deixa de viver. A Terra deixa de ser sua. Isso é muito bem retratado em outra história “O Reino de Amanhã” de Mark Waid. Se Superman sumir, ele está correndo da responsabilidade, mas também não pode assumir o manto de salvador. No fim das contas, a decisão deve sempre ser humana e coletiva.

Enquanto um filme como esse colocar na cabeça das pessoas que precisamos de UM homem poderoso para salvar a humanidade, seja um político, seja um messias, o mundo continuará sob o poder de poucos e caminhando para a destruição. Temos que esquecer o salvador, o messias. Podemos ajudar. Aqui está a grande vitória de outros heróis como o Batman. São heróis humanos, excluídos, que lutam contra injustiças diárias. Eles não estão aqui para salvar o mundo. No plano geral, o mundo só pode ser salvo pela própria humanidade.

quarta-feira, junho 28, 2006

Dica de programa para Julho

Vai ficar em São Paulo? A Casa das Rosas está com uma boa programação para o começo de julho. Recomendo:
PERFORMANCE SENSORIAL

Através da estimulação dos sentidos da audição, olfato, tato e paladar, a per-formance apresenta a leitura de Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Eduardo Galeano.
Direção: Thereza Piffer.

Sábados às 21h
Domingos, às 20 e 21h
Entrada: R$10,00
Só 20 lugares

Outras informações sobre a programação em: http://www.casadasrosas.sp.gov.br/casadasrosas/index.jsp

Always Look On The Bright Side Of Life

Uma dica de filme e uma música que pode alegrar (ou mudar) sua vida. Essa música composta por Eric Idle para o final do filme "A Vida de Brian" do Monty Python é, em si, o sentido da vida.

"Some things in life are bad
They can really make you mad
Other things just make you swear and curse
When you're chewing on life's gristle
Don't grumble, give a whistle
And this'll help things turn out for the best
And...

...always look on the bright side of life
{whistle}
Always look on the light side of life
{whistle}

If life seems jolly rotten
There's something you've forgotten
And that's to laugh and smile and dance and sing
When you're feeling in the dumps
Don't be silly chumps
Just purse your lips and whistle - that's the thing

And... always look on the bright side of life
{whistle}
Come on
Always look on the bright side of life
{whistle}

For life is quite absurd
And death's the final word
You must always face the curtain with a bow
Forget about your sin - give the audience a grin
Enjoy it - it's your last chance anyhow

So always look on the bright side of death
Just before you draw your terminal breath
Life's a piece of shit
When you look at it
Life's a laugh and death's a joke, it's true
You'll see it's all a show
Keep 'em laughing as you go
Just remember that the last laugh is on you

And always look on the bright side of life
{whistle}
Always look on the right side of life
{whistle}

Come on guys, cheer up

Always look on the bright side of life...

Always look on the bright side of life...

Worse things happen at sea, you know

Always look on the bright side of life...

I mean - what have you got to lose?
You know, you come from nothing
- you're going back to nothing
What have you lost? Nothing!

Always look on the bright side of life"
{fade}

quarta-feira, junho 07, 2006

Chuva

Esse conto fez algum sucesso com os que já leram. Não sei explicar o motivo. A idéia surgiu num sonho que tive. Sou meio doida, meus sonhos costumam ter enredo. Vai saber?

Chuva

– O que foi, anjo?

– A chuva. Não estou acostumada. – respondeu a moça de olhos claros fechando o casaco. O homem velho ao seu lado olhou ao redor. O parque estava quase vazio. Uma ou outra pessoa passava correndo. As árvores balançavam com o vento e a chuva fazia com que a paisagem se fechasse sobre os dois.

– Ficar sobre as nuvens nos faz esquecer o que ocorre aqui embaixo. Por que quis vir?

– Achei que poderia ser útil aqui. Agora, não sei o que posso fazer.

– O tempo dos anjos passou. Acompanho a humanidade tempo demais. – completou num sussurro, o velho.

– Mas eles parecem precisar mais do que nunca.

– Sim, precisam. – o velho abriu um guarda-chuva e começou a andar. – Vê aquela mulher? – indicou. Num banco, sozinha, uma jovem de cabelos negros olhava em volta.

– É ela que devo acompanhar? – perguntou a jovem anjo.

– Sim. Ariel, não deixe que ela te veja. Vou partir. Estarei guiando você. Não se apegue.

O velho desaparece. Ariel olha a jovem. Não parece triste ou feliz. Um olhar intrigado da moça percorre o parque. A chuva piora, mas ela não se move. Ariel senta-se ao lado da jovem. Ela sabe seu nome: Juliana.

Juliana olha o parque desolado. Pensa como mesmo sob chuva, parece mágico. Ela tenta não pensar no que deve fazer ou em onde deveria estar. Será que sentirão sua falta? Será melhor assim, senão teria que chorar ou parecer triste. Ela não se sente triste, quase não sente. Ela se pergunta o que ainda a prende ali. Uma situação tão diferente.

Ariel olha confusa para Juliana. Sabe que uma hora ou outra terá que aparecer, mas por que Samael a deixou ali? Uma voz, a voz do anjo, ressoa em sua mente.

– Porque você deve aprender. Olhe para essa moça. Teve uma vida comum para humanos. Mentiu, traiu, perdeu-se. Estou nesse trabalho desde o princípio dos tempos. A alma humana não nos interessa. Na verdade, pouco do que eles fazem nos interessa. São ordens e, sinceramente, eles estão a própria sorte há mais tempo que imaginam. Isso é tudo que fazemos agora. Não há motivo para mais. Sente-se ao lado dela, a acompanhe. O que acha que pode fazer pela humanidade? Acabar com as guerras, com a fome? Para quê? E não é possível, nem eles querem.

– É claro que querem. Só estão perdidos, desgarrados.

– Mesmo? Veja o quanto essa aí se importa. Só Ele tem esse poder e onde está?

– Não sei.

– Ninguém sabe, no céu ou no inferno. Olhe a mente dela.

Ariel faz o que o anjo disse. Juliana passou pela vida. Sentiu dó de quem morreu de fome, mas acostumou-se. Sentiu desprezo pelas guerras, mas não eram com ela. Amou, mas isso também se tornou um nada. Sua alma, sua mente quase como um buraco negro, nada sobrevive.

– Mas ela não é má. – exclama quase numa súplica a anjo.

– Não, é humana. E humanos perdem-se. Não de Deus que este nem nós sabemos. Eles perdem-se deles mesmos. Ela manifestou-se, votou, fez doações. Mas fez por que se importava e queria fazer diferença, ou fez por desencargo de consciência?

– Não sei. Não consigo ver. – responde Ariel num quase choro. – Como pode ser tão amargo? Não são eles os preferidos?

– São? Não é amargura, é conhecimento. Você não vê porque ela mesma não sabe. Eles não sabem o que os faz bons ou maus. Eles não sabem porque estão aqui e não sabem quem são. E nós também não, não suponha coisas. Apenas olhe. Ela está triste?

– Não. Ela não sente nada. É como se não existisse.

– Mas ela não existe mais, não é?

– Mas é como se nunca tivesse existido. As pessoas no funeral choram, mas estarão bem. É como se elas também não existissem.

– Sim, não há diferença. Nunca houve, na história ou na morte. É hora de levá-la.

– Não, podemos ensiná-los.

– A quê? Existir? Diga-me Ariel, você veio para ajudar ou por tédio? Você faz diferença? Você existe?

Ariel levanta-se. Não vai levá-la. Samael aparece na sua frente.

– Vá chorar anjo e volte quando se conformar.

Juliana pensa se isso é a morte. Esperar num banco sob a chuva. Qual a diferença?

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Campos do Jordão

Dez da manhã. Ela abre os olhos. Com cuidado, levanta-se, pega o maço de cigarros na cabeceira da cama e o casaco. Do lado de fora do quarto, percebe que ninguém mais acordou. O inverno faz com que tenhamos mais sono. Ela abre a porta da cozinha. O sol entra e ilumina a velha mesa azul. Sentada numa cadeira de madeira e palha, ela acende um cigarro. Seus amigos ainda não viram o lugar sob a luz solar. Ele acorda e vai para o banheiro. Ela o ouviu levantar. Quando entra na cozinha, pergunta:

– Bom dia, Thaís. O que você está fazendo?

– Bom dia. Apenas lagarteando.

Rodrigo coloca água para o café no fogo. Thaís o observa.

– Venha. – ela diz.

– Aonde?

– Você ainda não viu. – ela o conduz por entre os carros estacionados. Uma escada atrás do quarto dos fundos. Thaís começa a falar:

– Quando éramos pequenos, cinco ou seis anos, minha avó trazia eu e meu primo para Campos no inverno. Desde aquela época, considero o lugar mais literário que conheço. É claro que vejo com olhos de criança, mas quando imagino uma paisagem, um clima, um pôr-do-sol, minha mente volta para cá. – eles subiam os degraus escavados no barranco. Pequenas margaridas do lado esquerdo. Pequenas rosas do lado direito. – Cuidado com os espinhos. – continuou Thaís – Aqui em cima eu brinquei, chorei, mas, principalmente, imaginei. Olhe.

Tinham alcançado um jardim no alto do morro. A toda a volta, montes cobertos de araucárias e casinhas. O sol, incapaz de espantar o frio, contentava-se em reluzir nas folhas e telhas. Um galo cantou ao longe, atrasado, como quem tenta tecer sozinho a manhã. Um perfume de pinheiros enchia o ar. A brisa gelada os obrigava a fecharem os casacos. Hortênsias, cidreiras, azaleias. Thaís recomeçou:

– É o clima ideal.

– Esse frio? – perguntou Rodrigo, espantado.

– Sim. O frio faz as pessoas se encolherem, procurarem a companhia discreta de outras, compartilharem o calor. Não há lugar para gritos ou correrias. Isso é o verão. No inverno, somos incentivados a ouvir, falar apenas o que importa, observar e pensar.

Ela olhou as montanhas.

– Tudo é tão perfeito. Como num livro.

Ele seguiu seu olhar. Os minutos passavam e uma sensação lírica a tomava. Ela o encarou.

– Eu te beijaria aqui em cima.

Silêncio.

Olharam-se nos olhos. Uma compreensão única perpassou aquele momento. Ela sentou-se e acendeu outro cigarro. Rodrigo desceu.

quarta-feira, setembro 14, 2005

“Humano...”


prólogo

Fiaso é uma cidade de estudos. Feita grandiosa, abrange o mundo em suas bibliotecas e universidades. Abraça a criação artística em seus museus, catedrais, em todos os edifícios e instituições. Sua concepção de sociedade enaltece a Grécia de Péricles. Ao conhecê-la pode-se visualizar toda a evolução cultural do homem. A cidade tem como ponto mais importante sua biblioteca central. As lendas contam que os deuses, desgostosos com a civilização humana, escolheram suas melhores manifestações artísticas, literárias e filosóficas, e com estas criaram Fiaso. A biblioteca central é a própria biblioteca de Alexandria.

E como as lendas que a criaram, os moradores de Fiaso são deuses do conhecimento. Suas vidas são dedicadas aos estudos, às obras-primas, às manifestações e reflexões do melhor da natureza humana. Suas realidades são irrealidades. Suas vidas intelectuais são sustentadas por sofrimentos tão assustadoramente reais que extrapolam o possível.

Fiaso muda de nome quando vista por quem a sustenta. Fiaso torna-se Fasio, um modo fanho de expressar o vazio das vidas que trabalham para mantê-la funcionando. Vidas que não entendem a dimensão de obras que apequenam o que lhes é tão-somente humano. O sofrimento calça as pedras das ruas sábias. São duas cidades, pois uma cidade que espelha-se em Péricles não abarca uma cidade incapaz de se ver no espelho. Os deuses convivem com os mortais, mas o real é um Prometeu incapaz de libertar-se e obrigado a sofrer pela eternidade por possibilitar a existência do fogo do conhecimento no mundo humano.

É quando um forasteiro vindo de uma cidade comum, alguém cujo barco se perdeu na névoa, chega à Fasio, que as diferenças podem se tornar gritantes. Antes uma sociedade acomodada pode sofrer a revolta dos mortais. Porém, mudanças não ocorrem do nada e o forasteiro apenas precipitou os acontecimentos. O porto esculpido na pedra parecia ter sido construído no tempo dos deuses e inesperava os fatos porvir.

domingo, maio 01, 2005

Névoa

Esse texto precisa de uma introdução. Sei que não publico nada novo há algum tempo. Contudo, esse texto também não é novo. Na verdade, é antigo. É mais um depoimento que um conto. É algo que preciso me livrar. Escrevi no começo de 2003 e muito mudou desde aquele tempo. Eu morei em Florianópolis, tive outra crise depressiva em 2004 e finalmente larguei a faculdade para mudar de curso. Talvez, um dia escreva o que houve depois. O que importa é exorcizar uma parte do que passei. A depressão voltou depois de 2003, passou novamente e me fez mudar. A conclusão ainda é a mesma, assim como o caminho. Eu enfrento essa tempestade de tempos em tempos. Já faz parte de mim. É uma doença, como diabetes. Deve ser tratada e não ignorada. E, acima de tudo, deve ser encarada pelo que ela é: terrível, perturbadora e involuntária. Eu a enfrento todos os dias. Não vou me render, por mais fraca que já estive. por mais que quisesse morrer.
Névoa

“…e é isso a que se chama um vivente: um pouco de carne oferecida à agressão do
real.”
A. C-Sponville

Não acontece de uma hora pra outra. É como um nevoeiro. Primeiro o dia torna-se cinza, o ar fica mais pesado. O horizonte é o primeiro a desaparecer. A névoa aproxima-se lentamente. Cobre as casas, as matas, você. No começo, acreditei que passaria. Porém, um dia segue o outro e não conseguia enxergar além da neblina. Não era minha primeira depressão. Pude reconhecer os sinais, mas não quis acreditar. Aos dezesseis meu dia acinzentou pela primeira vez. Um ano. Todo perdido. Se me perguntar o que lembro, direi que quase nada além dos dias cinzas. A sensação é uma angústia constante, dilacerante e sem objeto. Com a angústia vem o medo e o desânimo. Não queria ir à escola, ou ao cinema, à balada, nem ao menos levantar da cama.

Daquela vez, não procurei ajuda. Parti numa viagem para o nordeste. No carro, procurávamos o Sol. Em Pernambuco, estado que me trouxe alegria no passado, só chuva. Minha mãe diz que só choveu um dia. Foi o único que vi. Eu lia o Werther. Não é a melhor leitura para um deprimido. Contudo a identificação é enorme. Não tanto com o personagem, mas o espaço que reflete seus sentimentos. Descobri que vemos o mundo através do nosso humor. Se a linguagem faz o mundo e está em nossa mente, nosso mundo pode tornar-se escuro. Recuperei-me sozinha. Foi penoso e lento. Mais lento que a chegada da doença. Porque é uma doença.

Dessa vez foi pior. Achei que tinha me livrado do causador dos males. Rompera com meu pai logo após completar dezoito anos. Meu primeiro ano de faculdade foi maravilhoso. Minha vida estava nos trilhos. Então descarrilhou. O mais estranho foi perceber. Logo nos primeiros sintomas, desconfiei. Quando estava sozinha, uma angústia tomava conta. Não sabia o que queria, o que fazer ou mesmo como parar de pensar. E como eu queria ser capaz de parar. Minha mente ficava intensa, pesada e muito cansada. Tentei ignorar. Meu maior medo era voltar para as brumas da depressão. Porém, assim como não podemos impedir uma tempestade, eu não pude evitar o que estava por vir.

As aulas na faculdade recomeçaram e eu não conseguia assisti-las. Toda manhã, quando acordava, me sentia exausta. Incapaz de levantar da cama. Em menos de um mês me rendi. Procurei minha mãe aos prantos. Estava aturdida, desesperada. Por que aquilo voltara? Até hoje não sei. Acho que faz parte do que sou. Diz um autor que algumas pessoas são deprimidas durante toda a vida. Apenas estão ou não em crise. Eu sou assim.

Procurei ajuda. Um profissional me passou um antidepressivo e análise. O remédio ajudou, mas não impediu o pior. Num domingo, meus amigos me convidaram para almoçar num japonês. Enquanto dirigia para o restaurante, estava nervosa. Lá, uma dessas discussões bestas começou. Uma garota reclamava a falta de atenção que prestavam nela, outro ficou bravo com a cobrança e, em pouco tempo, vozes alteradas argumentavam sobre a mesa. Minha cabeça começou a girar. Um choro e um grito entalados na minha garganta. Eu falei a meia voz:
- Chega, por favor. Não posso agüentar, não tenho estrutura emocional para isso. Parem, eu imploro.
O sussurro se transformou num pranto compulsivo. O meu amigo a direita me abraçou e me deixei chorar por vários minutos. A mesa estava silenciosa, ninguém dizia nada ou mesmo respirava de forma sonora. Estavam assustados, aturdidos, com dó ou preocupados. Sempre fui sensata. A razão da turma e o muro das lamentações. Minha casa estava sempre aberta para desabafos. Porém, eu nunca tinha estado tão vulnerável. Depois não lembro direito. Na segunda-feira acordei para a faculdade. Sentia-me abatida, cansada. Entrei no carro respirando mal. Na avenida, minha visão desapareceu. Enxergava tudo branco. Já não conseguia respirar e uma náusea terrível se manifestou.
O medo naquele momento é indescritível. Encostei o carro e tentei me controlar. Contudo, só conseguia pensar uma coisa: “preciso voltar pra casa”. Foi o que fiz. Arrasada, fui dormir. Acordei a noite. Tentei entender o que tinha acontecido. Era um ataque de pânico. Mais uma peça da depressão.

Não pude acreditar. Desafiando meu medo, tentei sair de casa no dia seguinte. Ao colocar o pé no hall, fiquei branca. Mesmo assim continuei. Minha mãe me pedira para ir ao supermercado com ela. Quando chegamos lá, ficar em pé exigia toda minha concentração. Num determinado momento, ela se afastou para pegar algo. Nesse lapso, notei onde estava e a quantidade de gente a minha volta. Não pude suportar. Encolhi-me atrás do carrinho e fixei os olhos no chão. O medo dominara minha mente e manifestava-se de forma física. Meu corpo não me obedecia, apenas implorava em voltar.
Toda manhã ao acordar, eu dizia a mim mesma: vou conseguir sair. Não adiantou. Os dias passavam e eu me sentia mal apenas ao pensar em sair. Na análise, a notícia era simples. Eu não estava com síndrome de pânico, apenas ataques ocasionais. Minha depressão tentava se manifestar de todas as formas possíveis. Disse o médico que em poucos dias eu conseguiria sair. Não foram poucos, talvez tenham sido, mas para mim, pareceu uma eternidade. Trancada, com medo, muito medo. Minha família tentava ajudar. Tentava me alcançar, eu queria morrer. Numa noite, meu padrasto me convidou para ir ao cinema. Sessão da meia noite, ingresso comprado pela internet, tudo para evitar pessoas. Eu tomei coragem, fui. Estava com minha mãe, meu padrasto, pessoas com quem me sentia segura. Por isso, quando a sessão anterior saiu, em bando, na minha direção, não pensei. Escondi-me atrás do meu padrasto, encolhida, olhando para o chão. O filme? Não sei qual era, não lembro. A única coisa impressa na minha memória é o desespero de estar entre tantas pessoas.

Sei que melhorei. Aos poucos, depois de um mês ou mais, pude sair sozinha, para lugares não muito agitados. Só que isso me fez tomar uma decisão. Essa foi a parte mais difícil da depressão. O momento em que ela se colocou entre mim e meu sonho. Não podia freqüentar a faculdade. Tentava, me torturava, me culpava. Culpa! Se meu pai fez algo comigo, foi me ensinar a sentir culpa, por tudo. A depressão me forçou a reavaliar minha vida, minhas prioridades. Eu devia ser minha prioridade e naquele momento, eu estava doente. Admiti. Tranquei a faculdade. Estava oficialmente inútil. Só que não conseguia ver meus dias, minhas noites. Dormia muito, ficava o resto do tempo sonolenta e me torturando. Pensamentos ruins. Não conseguia assistir televisão, prestar atenção em filmes, ler meus livros ou escrever.
Abril, maio, junho assim. Sem memória, sem ação, sem ninguém. Nesse meio tempo, em junho, na verdade, minha melhor amiga voltou dos EUA. Tentei melhorar por ela. Coloquei-me de pé. Ela pedira aulas para o vestibular. Organizei meu tempo. Enquanto ensinava não era eu mesma. Encarnei um papel. Tornei-me uma professora dura, exigente, incansável. Fazia isso por ela. Um mês dando aulas. Só me lembro disso, dos momentos em que estava naquela sala falando sobre reações químicas, livros, História. No final de julho me levei a acreditar que estava melhor. Que já era capaz de me reconstruir.
Ledo engano. Meus amigos me convidaram para passar quatro dias em Itatiaia. Caminhar, visitar cachoeiras, me distrair. Fui. No primeiro dia parecia tudo bem, estava sob controle. Fiz trilhas enormes no meio de uma mata densa e sombria. Não me lembrava de Itatiaia ser tão sombria. No segundo dia fomos para Mauá. Lugar pitoresco. Comecei a sentir o isolamento, a angústia claustrofóbica. Naquela noite entrei em crise. Chorava convulsivamente, sentia dores no corpo, na mente. Tentei fazê-las passar com remédios. Tomei alguns analgésicos, deixei-me dormente, insensível. Era o aviso. No dia seguinte peguei um ônibus de volta para São Paulo. Não estava recuperada, longe disso. Sei que fiquei meses nesse estado. Não saia de casa, quando saia tinha medo de multidões, da rua, de tudo. Perdi outro semestre na faculdade. No final do ano saí do antidepressivo, mas não era mais a mesma. Nunca mais voltei a ser a mesma pessoa. Aprendi o que é dor e medo numa intensidade desumana. No ano seguinte comecei a juntar os cacos. Alguns nunca voltaram, nunca se encaixaram. Outros escolhi jogar fora. O que sobrou eu ainda não conheço.

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Sebastian




A família não se reunia há muito tempo. Os filhos cresceram e sairam de casa. O pai morrera dois anos antes. Na casa moravam a mãe e Sebastian, um gato persa que completara dezesseis anos. A empregada aparecia quatro vezes por semana. Os filhos de vez em quando. O mais velho, Rodrigo, estava com vinte e oito anos. O mais novo, Rafael, vinte e cinco. Era domingo. Joana, a mãe, preparara uma refeição enorme. Pouco antes do almoço, Rodrigo chegou com a esposa e um bebê. Sebastian sabia, instintivamente, que mais pessoas viriam. Não sabia porque e não se interessava. Fechou os olhos e voltou a dormir.

Nos últimos anos perdera a vitalidade e passava a maior parte do tempo numa almofada no sofá. Sentia falta do vigor juvenil, de correr pela casa, brincar com borboletas, mas só pensar nessas coisas já o cansava. Sua visão já não era tão boa quanto antes porém, conhecia cada pedaço da casa. A audição, no entanto, continuava aguçada. Assim, quando a campainha tocou, Sebastian já ouvira passos e vozes na calçada. Às vezes, quando não queria dormir, observava o movimento da rua. Pessoas indo e vindo, pessoas que ele não conhecia, outras que já se acostumara. Um velhinho lhe interessava particularmente. Ele passava sempre no mesmo horário, pela manhã, com sua bengala, terno e chapéu. Naquela manhã de domingo, o velho não aparecera.

As novas visitas consistiam em Rafael e um moço. O garoto, humano preferido de Sebastian, atravessou a sala com passos ágeis e sentou-se ao seu lado. Sua mão acariciou-lhe a cabeça enquanto falava. Sebastian não entendia as palavras exatas, mas gostava da voz e tom de Rafael. Notou apenas que ele estava mais melancólico que o normal. Tinha a capacidade de perceber o estado de espírito das pessoas apenas pela voz. O gato ronronou como para dizer que estava grato pela visita e que tudo ficaria bem. Não importa o que o mundo coloque em nossa vida, somos senhores de nós mesmos, pensou Sebastian.

O moço que o acompanhava aproximou-se devagar e segurou o outro braço de Rafael de forma carinhosa. Sebastian percebeu que Rafael chorava. Levantou-se e subiu no colo do jovem, como fazia toda vez que este estava triste. Lambeu-lhe a mão e silenciosamente enrolou-se sobre as pernas dele. Era muito comum, antigamente, que Rafael brigasse com o pai. Os dois gritavam pela casa, o garoto subia para o quarto e se jogava na cama. Ele nunca batia a porta. Era como se esperasse que o gato fosse consolá-lo. E Sebastian o fazia. Entrava com seu passo leve, subia na cama e aconchegava-se ao lado do menino. Isso aconteceu por anos. A criança se tornou adolescente, jovem e, finalmente, um homem. Porém, nunca deixou de brigar com o pai. Sebastian suspeitava que o pai desaprovava algo no filho.

O jovem acompanhante de Rafael sorriu e o gato percebeu que, quando morresse, alguém cuidaria de seu menino. Com isso, ele levantou-se e voltou para a almofada. Agora, a família toda estava na sala, a mãe, os filhos e uma terceira geração. Sebastian não sabia o nome do bebê, mas confiava que nascera na melhor família possivel. A campainha tocou novamente. Dessa vez, uma prima dos garotos chegara. Devia ser uma ocasião muito especial, até a moça viera. Era bom ver todos reunidos. O gato sentiu falta do pai. Ele podia ter problemas com Rafael, mas sempre fôra um ótimo companheiro para o felino. Costumavam passar as noites na biblioteca em silêncio. O único ruído, além dos grilos do jardim, era a velha máquina de escrever. Um “tec, tec”constante e acalentador. Muitas vezes, após a morte do pai, Sebastian imaginava ouvir aquele som e dormia na certeza de que o pai estava alí.

Todas aquelas pessoas reunidas traziam boas lembranças à Sebastian. Quando os meninos ainda eram meninos, o gato pouco mais que isso, o pai vivo e saudável, a mãe sempre atarefada e a prima estridente, passavam as noites de inverno na frente da lareira. O pai sentava-se na poltrona, os garotos e a prima no chão, a mãe e o gato no sofá. Um jogo qual quer era colocado no tapete e a família ria e gritava noite adentro. No verão, eles costumavam brincar na piscina, no jardim. Essa era uma brincadeira que Sebastian nunca entendeu. Eles molhavam-se, pulavam na água e riam. O gato, desesperado, tentava alertar Rafael sobre a água. Miava quanto podia, mas o garoto não entendia e corria na direção da piscina. Nem para beber aquela água servia. Havia algo ruim, que Sebastian sentia pelo cheiro. Insetos caiam nela e morriam.

Hoje, eles não riam. Estavam contidos, às vezes sorriam levemente, mas sem risadas quentes de dias passados. Todos davam muita atenção ao felino, que acabou desistindo de dormir. Pensou que ao sentarem para comer, ele teria algum sossego. Se conhecia bem os humanos, quando reunidos para comer, ficavam mais de uma hora à mesa. Não apenas comiam, mas falavam muito. O almoço estava quase pronto. Sebastian sabia não só pelo cheiro, mas porque Joana levantou-se e começou a arrumar a mesa. Ela escolhia os lugares e desde a morte do marido, deixava uma lugar na cabeceira vazio. Sebastian espantou-se ao perceber que a empregada trouxera seu pote de ração para a sala de jantar. Colocara ao lado da cadeira da mãe. Era uma pasta de salmão. Nos últimos meses, o gato não conseguia mais comer a ração seca, então, substituiram por uma pasta. A de salmão era sua preferida e a mais rara. Realmente devia ser uma ocasião especial. Para ele, esse era um dos poucos prazeres que restara. Ele almoçou junto com a família, parecia falta de respeito não comer junto deles.

Depois da refeição, deitou-se no colo de Rafael. Rodrigo sentou-se ao lado e os dois ficaram acariciando-lhe a pelagem até que Sebastian caiu no sono. quando acordou, apenas Rafael estava na sala, com a mão pousada em seu dorso. Lágrimas escorriam pela face e o jovem o olhava de forma doce. Sebastian sentiu um profundo amor pelo garoto. Olharam-se por um tempo e o gato levantou-se. O barulho indicavam que todos estavam na cozinha, mas não se incomodou em procurá-los. Uma sensação de plenitude tomou seu corpo e a lembrança do velhinho que não passara essa manhã perpassou sua mente. Soltou um suspiro e ouviu atentamente. eram despedidas. Ele reconhecia pelo tom das vozes e movimentos. Um por um, todos vieram até o gato e lhe acariciaram. A família separaria-se mais uma vez, cada qual para o seu canto, sua vida, uma nova família.

Um som chamou-lhe a atenção. A máquina e seu “tec, tec”. Sebastian caminhou até a biblioteca. Aos de visão comum, estava vazia, mas para o gato, o pai encontrava-se lá, na cadeira de sempre. Ele sabia que o homem não perderia tal reunião. O felino subiu numa poltrona e aconchegou-se. Sua vida fôra boa. Perfeita, poderia dizer. Amava seus humanos, seus domínios, seu espírito. O som acalentador começou a dominá-lo. Pode ouvir os últimos adeus e deixou-se levar ao “tec, tec”.

(...)

Joana acordou triste. Não queria por Sebastian para “dormir”, mas o veterinário lhe dissera ser a saída digna. Logo, o gato ficaria tão doente, tão debilitado que morreria de tristeza. Isso era a última coisa que Joana queria. Sebastian fôra um companheiro fiel durante os melhores anos de sua vida. A ajudara a superar a dor da perda do marido, a partida dos filhos e os solavancos diários da vida. O almoço de domingo fôra perfeito. Todos puderam se despedir do gato. Rafael, apesar de abalado, parecia compreender que era melhor assim. De alguma forma, ver o felino uma última vez, passar a tarde com ele, servira como uma despedida honrada. e aquele gato devia ser honrado. Joana caminhou pela casa pensando nisso e procurando Sebastian. Resolveu tentar a biblioteca. Sabia que o gato gostava de dormir lá e estava certa. Ao aproximar-se, percebeu que o bichano já não respirava. Morrera durante a noite, mas morrera feliz.

sexta-feira, janeiro 28, 2005

Vinte Minutos


Império das luzes



Ela sai da aula. Sermões do século dezessete que ensinam hoje. Ainda com antíteses e barrocidades na mente, caminha para o carro. O celular toca.

– Alô! Oi Sá!

...

– Chego em casa em vinte minutos.

...

–Tá. Tchau.

O estacionamento lotado, bolsão do lago. Entre tantos carros, o dela é fácil de achar. Olha em volta, atenta. A violência da cidade chegou à universidade. Adora dirigir e, de todos os lugares, a universidade é seu preferido. Algumas vezes pega o carro e roda pelas ruas, apenas para arejar a cabeça. Sair da aula, à noite, e voltar para casa é terapia. A sua volta, diversos prédios, bem esparsos, arborizados. Até a saída do bolsão, sob a noite negra, na rua mal iluminada, ela acende um cigarro.

– Boa noite – diz o vigia.

Logo, ela está numa das grandes avenidas do campus. Alunos de todas as idades aguardam o ônibus. Ela engata a terceira. Na rotatória vazia não há necessidade de parar. Avenida principal. Quarta. Apenas o rádio e o som do vento. Grandes árvores verdejantemente negras sobre a rua. Ela começa a pensar na perfeição da noite. A saída da universidade se aproxima. O prédio da Fuvest, nem dentro, nem fora da USP. Agora, ela está fora, mas uma parte dela sempre permanece.

Pink Floyd no rádio. Parada no sinal, um menino chega a janela.

– Não tenho nada, hoje. – a resposta automática.

– Pra moça bonita vou fazer o truque mesmo assim.

Com um cordão seguro pelas duas mãos, ele faz um nó, sem soltar as pontas. Não deve ser difícil, ela pensa. Pior é ficar toda noite num farol. Verde. Ela se despede.

– Amanhã te dou algo. – ela pretende cumprir a promessa.

A essa hora, na cidade, pode-se engatar marchas raras. Terceira, quarta. Velocidade na paralela. Sobre a ponte, carros e luzes. Não são estrelas. Aqui, são ilusões tiradas de um filme futurista. Ela entra a direita. Não precisa. Provavelmente, só a faz perder tempo. Porém, gosta das grandes sombras de árvores sobreviventes. Um bairro escuro, de casas cheias de estilos, sem estilo. Não, não é o noturno de Belo Horizonte, mas é a cidade arlequinal. A literatura continua em sua alma. Ela pensa em tudo que estudou. Hoje, Vieira, amanhã, latim. Haec metuo ne sint somnia[i]. Na Pedroso, tantas sombras e silêncio. Contudo, as luzes invadem cada canto e prédios pseudomodernos surgem a sua frente.

Na ciclovia, um solitário jogging. A avenida nova, velho projeto. Não é por lá que vai. Seu caminho começa na biblioteca, passa pela livraria afrancesada e está na Inácio. Rua das baladas, qualquer dia da semana, está sempre aberta. Jazz, samba, rock, galinha frita. Se a vida é uma festa, é irônico que a rua dos bares termine no cemitério.

Quase em casa, pensa enquanto acompanha o muro branco. Última grande avenida. Sumaré. Nome indígena, córrego aterrado. Orquídea asfaltada. Essa ciclovia está deserta. Urbanos ao extremo, exercícios entre ruas. Sob o metrô, o carro da frente desacelera, para desgosto da motorista. Minha última oportunidade de engatar quarta, pensa. Está em terreno mais que familiar, todo dia, toda noite, sempre ali. O retorno, o cruzamento. O semáfaro fecha. Ela suspira, observando a padaria, a locadora, a ladeira, o prédio e pensa no jantar. Verde. Não há tempo de ver o caminhão que passa no vermelho.



[i] “receio que tudo isso sejam contos” (Cícero)



quarta-feira, outubro 27, 2004

Aula


Sophie Boutellier



Prédio da Letras, USP. Os alunos entram na sala. Conforme se acomodam, notam a professora Vera sentada sobre a mesa, quieta. Atrás, na lousa, está escrito: Mrs. Dalloway, Virginia Woolf. São sete e meia da noite. A aula está para começar. Um grupo conversa baixinho no fundo. Alguém comenta um filme, outro diz que não é o mesmo livro, a garota questiona. A professora não se move. Os minutos passam, alguns alunos começam a ficar inquietos. Então, Vera levanta um dedo. Silêncio.

- Apenas uma pergunta. – começa Vera.- Tenho uma pergunta para vocês. Por que alguém se mata?

Um rumor percorre a sala. Todos avaliam o que poderia ser respondido. Uma timidez inicial. Alguns segundos de hesitação. Uma garota, na primeira fileira, vestida com uma saia longa e camisa fechada até o colarinho, arrisca:

- Covardia.

A professora a olha longamente. Parece avaliar o aspecto da moça.

- Resposta típica religiosa.

Um outro braço levanta. Um homem de óculos e aparencia severa.

- Desespero. Depressão.

- Resposta da psicanálise.

Uma garota bonitinha, com blusa cor de rosa:

- Amor não correspondido.

- Resposta romântica. Podemos ficar aqui a noite toda. Cada um terá uma idéia própria e nenhuma delas será certa ou errada. O suicídio é tão antigo quanto o homem e mais misterioso que Deus. Quem aqui nunca cogitou se matar é um imbecil. A vida é cansativa, difícil e repleta de doenças. Nunca é um único fator, apesar de existirem gatilhos. Virginia Woolf se matou. A mente romântica diz que foi por sua sensibilidade de escritora, o psicólogo que era bipolar e assim vai. A verdade é que pouco importa. É claro que sua personalidade influi no texto, mas o texto é um todo sem ela. Sobreviveu a sua morte. Eu, pessoalmente, me identifico com a escritora.

Uma pausa. A professora fecha os olhos. Alunos anotam as informações. A moça religiosa reclama, diz que não é imbecil. Vera abre os olhos.

- Alguns de vocês devem ter assistido o filme “As Horas”. Esse foi baseado num livro homônimo que utiliza Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf para amarrar suas protagonistas. Uma delas é a própria escritora. Nesse semestre utilizaremos o livro Mrs. Dalloway para discutir o romance de língua inglesa do começo do século XX.

- Professora, ela não foi o único escritor que se matou nessa época, não é?

- Não, não foi. Virginia Woolf colocou uma pedra no casaco e se afogou. Outros usaram balas, remédios, etc. Eu, se fosse cometer suicídio, daria um tiro no céu da boca. Mas, voltando a autora. Ela era uma mulher brilhante. Enquanto escrevia mantinha-se agíl, exaltada, quase feliz. Depois de terminar um livro, sua doença voltava. Dores de cabeça, vozes, cansaço. Penso na dor do sossego. Seu exílio forçado de Londres. Acho que ela compreendia a vida e deu tudo que queria ao mundo, mas esse não retribuiu. Não da forma correta para o caráter dela. Uma pessoa pode amar a vida e se matar. É isso que acho que aconteceu. Ao lerem seus livros percebemos uma visão bela e aguda do mundo. Suas construções de paisagens, sua liguagem intimista e assustadoramente próxima de como pensamos.

- Professora – interrompeu um garoto de camiseta colada e calça bem cortada – se ela amava a vida e podia transformá-la em algo tão incrível, por que se matou?

- Por que a vida, mesmo bela, cansa.

O olhar de Vera tornou-se vago. Parecia ter perdido-se dentro dos caminhos tortuosos e cheios de cores do pensamento e das letras. De súbito, sua atenção retornou.

- Quero que tentem não pensar no suicídio da autora ao lerem esse livro. Originalmente, deveria chamar-se “As Horas”, como no romance que originou o filme. Mrs. Dallaway relata um dia na vida desta. Um dia com todo o significado da vida desta. Conforme levantarmos aspectos técnicos de estilo, vocês escolherão um para seu ensaio final. Classe dispensada.

Os alunos guardam os cadernos, arrumam bolsas e mochilas, levantam falando da aula ou bobagens quaisquer e saem. Vera desce da mesa e começa a organizar suas coisas. Provavelmete nunca fez isso com tanto esmero. A sala está quase silenciosa, apenas algumas vozes, já no corredor, entram pela porta. Então, ela nota um aluno ao seu lado. Ele espera pacientemente que ela guarde umas folhas na pasta e sorri. A professora nota que ele nunca fala em aula, mas parece estar sempre com olhos brilhantes, absorvendo cada gota de informação.

- Desculpe professora, mas se você não quer que pensemos em suicídio enquanto lemos Mrs. Dalloway, por que falou sobre isso a aula toda?

Vera o encara. Percebe pela expressão do jovem que ele não quer ser impertinente, está apenas intrigado. Por um momento pergunta se ele percebeu, mas afasta a idéia. Ela solta um longo suspiro, sorri e responde:

- Vá pra casa. É tarde.

- Está bem. Até amanhã.

- Adeus.

O jovem aluno entra no prédio. Uma estranha agitação percorre os corredores. A FFLCH está sempre agitada, porém não daquela forma. Ele lembra do começo de Mrs. Dalloway. Será um carro da família real, brinca consigo mesmo. Se dirige para a sala 170. O ar está pesado, pessoas conversam baixinho nos corredores. Na frente da sala, uma multidão silenciosa. Ele pergunta:

- O que houve? A sala está trancada?

A garota de cabelos verdes aponta um cartaz. A USP oferece um memorial a falecida professora Vera Morales. A garota completa:

- Suicídio, ontem à noite. Um tiro na boca.




domingo, outubro 17, 2004

Os Pilares


Gárgula


Ele nunca tinha visto um lugar como aquele. A imensidão fazia com que se sentisse insignificante. Grandes pilares com nervuras e rendilhados subiam a sua volta para formarem arcos leves e abóbadas quase celestiais. Algo como um esqueleto enfeitado segurava paredes brancas como mármore carrara e grandes vitrais coloridos filtravam a luz. O ar parecia feito de pó mágico dourado. Tudo era lúcido e desenvolto, desde a disposição dos pórticos até o rendilhado do tifório. Do lado de fora, gárgulas, frisos e esculturas santas protegiam o maravilhoso edifício. “Então, aquilo era uma catedral”. Pensou encantado Rafael.

Poderia ficar horas passeando e admirando o lugar. O silêncio o enchia de paz. Era como uma melodia, composta por homens, mas de natureza celeste. Ele quase acreditava em Deus, sentado ali e observando. O lugar estava deserto. Havia um vigia na entrada, porém nenhuma alma viva, além dele, dentro da catedral. Rafael inspirou profundamente e expirou todo o tormento de sua vida. Sua mente vagou por vitrais e arcos, sem se apegar a nada.
Um som de passos ecoou pelo claustro. Firmes, decididos e indiferentes ao espetáculo arquitetônico a sua volta. Rafael sabia quem era. Só uma pessoa conseguia ignorar uma obra de arte daquelas.
-Olá, Ana! – sussurrou Rafael.
-Ah! Ai está você. – ela respondeu no tom normal de voz.- Vamos? Quero tomar um banho antes do jantar.
-Vamos. – disse Rafael desanimado. Ana sempre o puxava para a realidade. Não que esta fosse ruim, mas era atribulada. Ele a amava, mesmo tão realista, tão pouco criativa. Podia sonhar pelos dois. Talvez fosse por isso que estavam com problemas agora.
Ele se levantou e caminhou ao lado dela até o carro. Antes de entrar deu uma última olhada para a igreja.
-Você está bem? – indagou Ana.
-Estou. Esse lugar é tão calmo, não?
-Calmo demais! Tem certeza que não é aquilo que o está incomodando?
-Não, não tenho. Você sabe o que eu sinto sobre esse assunto.
-Sei. Contudo não é um bom momento.
-Para falar sobre isso ou para isso?
-Os dois.
Não disseram mais nada até o hotel. Tinham trabalhado o ano todo para juntar dinheiro para a viagem e, agora, um clima pesado os acompanhavam pelas diversas aldeias, cidades e castelos que conheciam. Eles se arrumaram e perguntaram para a recepcionista por um bom restaurante. O jantar transcorreu sem problemas. Falaram dos lugares que viram, dos lugares que iriam conhecer nos dias seguintes e evitaram a todo custo falar do assunto que dominava suas mentes. Por fim, Rafael não agüentou.
-Precisamos conversar.
-Eu sei.- respondeu Ana, cabisbaixa.
-Por que não pensa na idéia?
-Só falta você falar que as montanhas parecem elefantes brancos!
-Sim, mas estamos com papéis invertidos e isso não é um conto do Hemingway.
-Rafa, você sabia que eu não queria filhos quando casou comigo. Achei que você não quisesse.
-Eu não queria, mas agora quero. Pensei que você mudaria de idéia com o tempo.
-Todo mundo pensa isso. Não sei. Minha carreira. O orçamento, a responsabilidade. Não sou muito maternal, você sabe.
-Não precisa. Temos condições de criar uma criança e posso me dedicar bastante. Trabalho em casa. Posso adaptar meus horários. Você não precisará abrir mão de nada.
-Mas isso muda tudo. Um filho vai alterar nossa vida completamente. Está tão bom do jeito que está.
-Não, não está.
-Por que você quer tanto?
-Não ria.
-Não vou.
-Porque eu te amo. Porque quero um fruto desse amor.
-Não sei. Me deixe pensar no assunto. Não é fácil repensar anos assim.
-Eu sei. Desculpe.
-O que faremos?
-Não sei.
-Nos separar, se eu não quiser ter filhos?
-Não. Eu te amo. Não quero viver sem você. Mas...
-É.
Ficaram em silêncio. Não era o mesmo silêncio que Rafael experimentara na catedral. Esse era tenso, cheio de reflexões e conseqüências. A conta veio. Pagaram e levantaram.
Meses depois, em casa, Rafael pensava naquele dia. A decisão não vinha. O que faria? Deixar a mulher que amava por que seus caminhos e desejos tomaram rumos opostos? Ou abrir mão do que mais queria? Olhou para a tela do computador. Pensaria nisso amanhã. Todavia, dizia isso todos os dias. Adiando o inevitável.
Ana chegou. Estava cansada, mas bela como sempre. Trocaram olhares. Então ela o beijou e disse:
-Eu entendo!

sábado, outubro 09, 2004

Folhas Suspensas

Um passo, mais um, seguido de outro e mais outro... um passo rangido rachando o silêncio. No sono profundo e lúgubre da madrugada, um passo saindo de uma tábua solta do assoalho. A lua projeta uma sombra, luz branca sobre o caminhar. Com um impulso o silêncio é quebrado. O Gato pulou na janela e cantou ao orvalho.

A casa não respondeu. O vento preencheu a solidão e aves noturnas medrosamente assustavam. Do parapeito via-se o fora de dentro e o interior de fora. Indefinido lugar numa vida definitivamente sozinha. Uma casa construída no ermo. A imagem do horizonte longínqüo, apenas com sombras de árvores. O azul quase negro da madrugada encontrando o solo. Um lugar parado no tempo, fora do tempo. O Gato já estava com 12 anos humanos e pouco contato tivera com estes. Apenas aquela casa secular lhe fizera companhia e agora perdia pedaços a cada dia. Era uma construção imponente. Apesar do efeito dos anos, ainda conservava uma aura de elegância. Como a casa de campo de um czar russo, majestoso porém decadente. A diferença é que a casa de um czar seria um patrimônio conservado. Esta era a casa mais importante nas redondezas de uma cidade fantasma. Tudo rangia, afugentava, quebrava sem ninguém, além do Gato, para ouvir. O felino deslizava por seus salões, quartos, escadas e parapeitos, todos os três andares do casarão feitos como que para ele. Assim, o que fazia era diferenciado pela estrela sobre sua cabeça. Sob o Sol lentamente pensava em folhas suspensas no ar, existindo como pássaros, só por alguns segundos. À noite, sob estrelas frias e distantes, passeava sentindo arrepios ao sopro gélido do vento sul .

Nem sempre fora sozinho. O único contato com pessoas, sua senhora dona, morrera há quatro estações. Mas, mesmo ela, tinha uma presença solisilenciosa. Seguia uma rotina sem sobressaltos ou visitas. Acordava com a aurora, passava a manhã cuidando do jardim e depois do almoço adormecia na rede da varanda. No final da tarde sentava-se para observar o pôr-do-sol e lia na sala principal à noite. No dia seguinte recomeçava. Só se dirigia ao Gato para um carinho ocasional. Não o alimentava. Ele sempre caçara sua comida. Viviam vidas paralelas preenchendo a solidão do outro com um silêncio solidário.

Numa tarde, aquela tarde que precede a noite de lua cheia, um som se fez ao vento. O rugido superava seus miados. Uma imagem distorcida no calor sobre o asfalto definia-se na estrada da mansão. Um ser enorme e barulhento vomitava pessoas no jardim, adormecia e..., horror! Aquelas pessoas afastavam-se do bicho metálico e entravam na velha casa. Agiam como donos, mudavam móveis de lugar, batiam lençóis e instalavam-se.

O Sol, solidário, aproximava-se do chão e espiava pela janela o Gato a chorar. As coisas da senhora dona mexidas. Sua casa mudada, infestada de cheiros estranhos. O Sol se escondeu. Há muito tempo não acendiam-se luzes à noite. As pessoas ficaram. Conversaram, comeram e fizeram planos de mudança. Agora que dormiam, o Gato no parapeito decidira-se. Sua dona partira e ele ficara enquanto a vida foi a mesma. Contudo aquelas pessoas não pareciam estar de passagem. Eram barulhentos jovens sem paz de espírito. Numa única noite já destruíram seu passado, numa única visita inseriram a casa nas engrenagens do tempo.

Olhou para dentro, a lembrança das folhas suspensas, da senhora lendo enquanto acariciava seu pêlo, da vida correndo num tempo estático. Levando as últimas lembranças o Gato partiu. Num salto que definiu sua vida.


quarta-feira, setembro 22, 2004

Frio


Campos

Pinheiros contra o céu. O vento gelado carrega nuvens brancas e raios dourados atravessam as árvores, tocando gentilmente a pele dela, tentando inutilmente aquecê-la, num gesto de compaixão e beleza. Thaís caminha pelo bosque sozinha. Pensando em tempos passados nos quais aquela cidade nada mais era que uma estação de tratamento de tuberculose. Ela pensa em alugar um cavalo. Galopar pelas montanhas sozinha. Rodrigo partiu. Eles sempre partem. De alguma forma, ela sabe que deveria estar mais triste. Talvez o frio a faça economizar emoções.
Thaís resolvera ficar um dia a mais que os amigos. Espairecer, disse a eles. O que ela queria era se livrar das pessoas. Caminhando na direção dos cavalos, ela nota um pequeno gato preto sobre a cerca. O felino caminha com elegância e agilidade, como se não notasse a dificuldade das manobras. Queria ser um gato, pensa a moça. O olhar do gato responde: talvez seja! Thaís ri internamente. Nos lábios apenas um singelo sorriso transparece. O garoto dos cavalos pergunta se ela deseja um cavalo bem manso. Não, responde a garota, um que galope bem. Ele aponta para um garanhão dourado. Ela paga por duas horas. O menino olha espantado e pergunta se ela precisa de dicas de lugares. Não, responde Thaís montando no cavalo.
Ela envereda para as montanhas, seguindo uma velha estrada de terra, rápida, o vento forte no rosto, o movimento ritmado do animal e a liberdade do momento. Já faz muitos anos que ela fez aquele caminho. Contudo, conhece-o por instinto e ninguém costuma usá-lo. A primeira parte do trajeto é uma reta em campo quase aberto. Os únicos sons são os dos cascos batendo no chão e dos pássaros. O caminho começa a inclinar, subindo levemente, não é preciso diminuir a velocidade, não ainda. Sua mente viaja mais rápido e Thaís pensa em quanta beleza o mundo guarda, belezas tão fortes, tão intensas que provocam dor no seu intimo.
Quando Rodrigo e os outros partiram, ele a perguntou se ela estava bem, se ela compreendia. Sim, ela compreendia e agora estava livre. Eles fingiram entender seus motivos para ficar, uma amiga se ofereceu para acompanha-la. Thaís recusou. Precisava daquela solidão. A mata fechava-se sobre a garota, o sol escondido sobre as folhas. Ela sentiu-se distante, não fisicamente, mas emocionalmente. Uma pessoa deslocada, sem ligações reais com o mundo. E se ela caísse do cavalo, se morresse naquele instante, será que seria tão ruim? Ela desejou que acontecesse. Contudo, não desejou a ponto de provocar. Estava apenas cansada da vida. Sabia que passaria, que reconstruiria sua vida e ainda tinha objetivos. Eles teriam de ser seu rumo, objetivos, não pessoas ou prazer de viver. De alguma forma, ela gostava do mundo, da vida, podia ver e sentir sua beleza, mas se não conseguisse transformar o que sabia em algo concreto, não conseguiria espantar aquele desejo mórbido. Também sabia que precisava de ligações mais intensas com as pessoas, mas já não sabia como criá-las. Existiam pessoas que ela amava e que estavam em sua alma, mas ela acreditava que entenderiam se não agüentasse mais.
Agora, a estrada virara uma trilha entre árvores e Thaís já podia ouvir o barulho da água caindo. Trotando, ela entrou numa clareira e lá estava, uma grande cachoeira, a água prateada caindo sobre um enorme fosso azul escuro. Reflexos dourados na superfície criavam a impressão de um poço de jóias. Trepadeiras verde-vivo caiam pelas árvores inclinadas sobre a água. As pedras formavam desenhos diferentes para cada olhar. Alguns viam escadarias, outros torres, ela via apenas beleza pura. Desmontou do animal e deixou-lhe beber daquela água gélida e clara. Thaís caminhou até uma das rochas que proporcionava uma visão perfeita do lugar. Sentada, apenas respirando aquele ar puro e com odor de pinheiros, Thaís sentiu-se viva como nunca antes. Um espetáculo natural com uma vida própria a rejuvenescia.
O amor que sentia pelo mundo era tão imenso, mesmo assim, suas ligações tão poucas. Rodrigo não passara de uma tentativa de envolver-se com a vida, uma vontade de normalizar sua pessoa, quando isso teria sido tão prejudicial. Thaís percebia agora que sua grande virtude era exatamente esse deslocamento. Ele lhe dava a capacidade de apreciar o mundo e representar suas belezas, de pensar e criar algo próprio. Também lhe dava a capacidade de entender as pessoas e tocá-las sem se contaminar, sem tornar-se parcial demais. De amá-las como um todo e ter esperanças, dar esperanças e ajudar. Não fazer parte lhe dava um papel no mundo e um impulso para continuar.
Thaís levantou-se, montou no cavalo e continuou subindo. O entardecer aproximava-se. No cume da montanha, ela parou e olhou. Observou com olhos de escritora, daquela que representa, toca e ensina, mas não daquele que vive cotidianamente. A esfera vermelho-sangue, a neblina a sua volta e picos esbranquiçados com suas araucárias saudando um céu colorido e quase ou sempre divino. Como uma miragem num deserto frio, o círculo que propicia a vida desaparece num vermelho irreal, quase obra de artifices tecnológicos. Numa piscina de fogo líquido, ele se despede deixando-nos o vento cortante e impiedoso. A lua crescente nos saúda, anunciando a noite de seres gélidos. Sob a luz prateada, Thaís desceu a montanha e voltou a viver.

domingo, setembro 05, 2004

Duplo


atget_austrian

Levei muitos anos para tomar coragem e contar essa história. Ricardo era um grande amigo e o que aconteceu com ele nunca fez muito sentido. Porém, o que faz sentido nessa vida? Para os que ficam, nem a morte. Fatos estranhos ocorreram naqueles dias e ainda me assusto quando conheço gêmeos. Mas estou colocando o carro na frente dos bois. Não estou aqui para filosofar sobre a vida e sim contar os últimos dias de meu amigo.

Estávamos no fim do verão. Logo que voltei das férias fui visitá-lo. Ele morava num apartamento em Higienópolis, um bairro de classe média-alta de São Paulo. O prédio, muito antigo, estava bem conservado. O apartamento era amplo e extremamente organizado. Essa era a maior característica de Ricardo. Perfeccionista ao extremo, com mania de limpeza e planejamento, tudo na sua vida refletia seu modo de ser. Móveis brancos e modernos. Boa utilização do espaço. O perfeito arquiteto bem-sucedido. Contudo, sempre achei que faltava personalidade na sua casa.

Ele me recebeu com uma taça de vinho branco. Ricardo tinha uma ótima adega de vinho branco. Assim que começamos a conversar, percebi que havia algo errado. Ele riu, descoversou e por fim me contou.

- Não é nada demais – falou sorrindo – apenas algumas peças que minha mente anda pregando. Acho que trabalhei tanto nesse verão que o estresse afetou minha visão. Tenho visto algumas coisas duplicadas.

- Como assim?

- Ah, começou semana passada. Saí para o escritório e duas senhoras, iguaizinhas, atravessaram a rua. Na hora não dei importância, mas no semáforo seguinte, dois homens gêmeos aguardavam na calçada. Quando cheguei ao escritório, duas garotinhas idênticas brincavam de amarelinha na rua.

- Foi apenas coincidência.

- Foi o que achei. Só que fiz a bobagem de comentar com o pessoal do trabalho. Agora, todo dia há algo duplicado na minha sala. Começou com o grampeador. Ontem, eles conseguiram duplicar meu Mondrian.

- Não é difícil conseguir uma cópia de um Mondrian. Desencana, logo eles cansam de brincar.

Continuamos conversando e rindo do que mais os colegas de Ricardo poderiam duplicar. Contudo, o semblante dele estava pesado. Disse para mim mesmo que era excesso de trabalho e combinamos de almoçar dali a três dias.

No dia combinado, Ricardo apareceu no restaurante atrasado. Não era do seu feitio perder a hora. Sua aparência cansada me assustou e sugeri que precisava de umas férias. Ele me contou que não era o trabalho que o estava atormentando e sim a estranha duplicação das coisas. Dessa vez não poderia ser alguém do escritório. Seu computador fôra duplicado. Ninguém gastaria tanto dinheiro para pregar uma peça. Ou se daria ao trabalho de copiar tudo que havia num para o outro. Tentando animá-lo, comentei:

-Não reclame. Agora você tem dois computadores. São apenas objetos.

- Não, não são. Olhe em volta.

Passei os olhos pelo salão do restaurante. Para meu espanto, havia pelo menos quatro pares de gêmeos em outras mesas. Foi assustador. Contudo, me controlei e tentei avaliar a situação. São Paulo era uma cidade enorme e estranha. Nós nos acostumamos com pessoas diferentes ou situações peculiares. Provavelmente passavamos por gêmeos o tempo todo, apenas deixamos de notar. Tentei convencê-lo disso, mas Ricardo estava irredutível. Acreditava piamente que o universo estava brincando com sua mente.

- Não é só aqui. A secretária do meu chefe tem uma irmã gêmea trabalhando na recepção. – Ele completou.

- Isso é normal. Ela conseguiu que a irmã fosse admitida. Afinal, ela é a secretária do chefe, não?

- E como você explica os dois vasos idênticos na minha casa hoje de manhã?

- Essa é fácil. A Val deve ter comprado.

Valéria era a namorada do Ricardo há dois anos. Tinha a chave do apartamento e vivia reclamando que faltavam objetos de decoração lá. Era a cara dela simplesmente comprar algo e colocar na sala, sem perguntar. Ricardo balançou a cabeça e começou a comer desanimado. Ao olhar o prato dele, quase tive um enfarto. Todos os alimentos, até o grelhado, vieram em duplas. Quando apontei, ele resmungou que já fazia dois dias que isso acontecia e continuou a comer.

Nos dias que se seguiram tentei reparar mais no mundo ao meu redor. Procurava gêmeos ou objetos duplicados em toda parte. Contudo, era raro ver duas pessoas iguais juntas. Comi no mesmo restaurante o resto da semana e em nenhum dia vi pessoas ou pratos duplicados. Cheguei a pedir o mesmo grelhado que Ricardo duas vezes. E sempre vinha a quantidade normal de comida. Ora, será que aquilo só acontecia com ele? Por quê? Resolvi telefonar e descobrir como ele estava. A secretária eletrônica atendeu e a mensagem tocou duas vezes. Depois de dois sinais pude deixar meu recado. Naquela noite, Ricardo me telefonou. Pediu que fosse até sua casa para conversar. Mal cheguei e ele me interrogou:

-Você está brincando comigo? Por que deixou dois recados iguais na secretária?

- Não deixei!

Ele soltou um longo suspiro e me convidou a entrar. Os porta-retratos, vasos, livros, CDs, mesmo os móveis, estavam todos duplicados. Nos sentamos e começou a falar. Sua vida estava um inferno. Tudo e todos apareciam aos pares. Não podia explicar e aquilo o enlouquecia. Observei o apartamento. Continuava organizado e o excesso de objetos não alterava o efeito de amplidão e limpeza. Na verdade, a área do lugar parecia ter aumentado para compensar as aparições. Ricardo concordou. Disse que medira a sala e esta dobrara de tamanho.

- Isso não é tão ruim! – tentei brincar. O que eu estava pensando? Dexei-me levar pela loucura do impossível. Porém, Ricardo estava em frangalhos. Sua teoria de duplicação não era acurada, como me mostrou. Não apareciam apenas cópias das coisas, mas réplicas espelhadas.

- Os gêmeos que conheci nos últimos dias têm personalidades opostas, um é destro, outro canhoto e assim por diante. Olhe para os retratos. São cópias espelhadas. É alguma mensagem.

- Ora, não exagere, Ricardo. São apenas acontecimentos estranhos. Algo fora de sincronia. Por que diabo o universo teria uma mensagem apenas para você?

- Não sei. Talvez eu não seja o único. Minha vida está se desfazendo.

Nesse momento, um barulho de chaves interrompeu a conversa. Valéria entrou nervosa, vermelha, nem notou minha presença na sala. Olhou para Ricardo e começou a gritar:

- Como você pode? Dediquei dois anos da minha vida para você e me trai assim, na cara dura.

- Do que você tá falando? – perguntou Ricardo, abobado.

- Eu vi você com aquela vadia. Nem se deu ao trabalho de esconder. Você sabe que eu tomo café no Fran’s todo dia.

-Eu não fui ao café, hoje. Muito menos com uma mulher.

- Eu vi. Pare de mentir. Você estava se agarrando com ela. Nem olhou na minha cara. Obviamente passou a noite com a galinha.

- Val, querida, não era eu. Nunca faria isso com você.

- Pára com isso. Pelo menos assume o que fez. Sei lá, diz que não significou nada. Mas não mente pra mim. – lágrimas escorriam pelo rosta da jovem. Seu corpo tremia de raiva.

- Eu juro. Passei a manhã toda no escritório. Pergunte por lá.

- Desgraçado. E o que você fez com o apartamento? Não importa. Aqui está sua chave. Está tudo acabado. – disse saindo.

Ricardo não disse nada. Sentou-se e escondeu o rosto nas mãos. Naquele momento pensei que ele pudesse estar enlouquecendo. Que fazia as coisas e não lembrava. Que via coisas. Sem me despedir, voltei para casa e tentei esquecer o assunto. Durante uma semana, evitei ligar ou encontrar com ele. Tentava, desesperadamente, encontrar uma explicação para tudo que não envolvesse a sanidade mental de meu amigo. Além disso, eu mesmo vira os gêmeos no restaurante.

Então, algo aconteceu que mudou toda minha atitude. Fui ao shopping revelar um filme das férias. Estava despreocupado, passeando enquanto as fotos ficavam prontas. Na escada rolante oposta, descendente, vi Ricardo e uma moça rindo. Chamei por ele, mas não me respondeu. Dei a volta e desci atrás. Queria falar com ele, parecia bem. Todavia, quando cheguei embaixo, ele desaparecera. Resolvi passar na sua casa à noite. Lá chegando, a pessoa que abriu a porta não parecia o Ricardo que conheci. A barba mal-feita, roupão e restos de comida pelo apartamento. Seu olhar beirava o de um louco.

- O que aconteceu? – perguntei –Te vi no Pátio à tarde, você não respondeu.

- Não era eu, pra variar.

-Como assim?

- Está bem. Você é o único que me ouviu com calma até agora. Lembra da Val? Pois é. Dois dias depois fui demitido. Disseram que entrei no escritório no fim de semana e vendi todos os projetos. Ah, também dei uma festa.

-Peraí, você fez tudo isso?

-Não. Acho que não sou o único que vejo duplos. Na verdade, acho que me dupliquei. Era só o que faltava.

- Isso é loucura. Você precisa de ajuda médica.

-Já procurei ajuda. Não tenho dupla personalidade. Aliás, segundo o psiquiatra, não tenho personalidade. – Disse e desatou a rir.

Aquilo me assustou. O que quer que estivesse acontecendo o afetara. A casa duplicada não me espantava mais. Aterrorizante era o olhar de Ricardo ao dizer que o universo destruiu sua vida. Saí de lá o mais rápido possível. Não porque não me importava, eu me importava, mas porque tive medo.

O fundamento desse medo se concretizou poucos dias depois. Recebi um telefonema de madrugada. Era Ricardo:

-Ele está aqui. – e desligou.

Na hora, não entendi o que ele queria dizer. Quando pela manhã Val me ligou histérica, as coisas começaram a se encaixar. Não tenho coragem para dizer o que entendi. Não iriam acreditar. Vou apenas contar os fatos. Cada um chegue à conclusão que lhe convir.

Ricardo foi encontrado morto em seu apartamento. A perícia concluiu suicídio. Porém muitos fatos não puderam ser explicados. O tiro desferido pela arma na mão de Ricardo foi reto, para a frente dele. O tiro que o matou, também reto, veio da direção oposta. A bala na parede era exatamente igual à que estava em sua cabeça. Contudo, a arma só disparou um tiro. A bala foi o único objeto duplicado encontrado em seu apartamento. Todo o resto estava normal. O local estava trancado por dentro e o porteiro disse que Ricardo foi o único a subir, duas vezes. Não encontraram bilhete. O detalhe que utilizaram para concluir que ele se matara: um livro de Edgar Allan Poe sobre a cama, abeto no conto “A queda da casa de Usher”.

Não olho mais para o espelho.